Texto escrito por Mathias Bloch

A insatisfação é um comportamento típico dos seres humanos. É bem mais frequente ouvir reclamações, queixas sobre o que falta, ou o que poderia ser melhor do que a gratidão real pelo que se tem.

O mesmo ocorreu com Korach, que mesmo sendo o homem mais rico de Klal Yisrael, um sábio, decidiu se rebelar contra Moshe.

O Midrash Tanchuma, na parashá Korach, tenta identificar a fonte do erro de Korach, dizendo:

“O que levou Korach – um homem sábio – a praticar tal absurdo? Sua visão (profecia) fez com que cometesse o erro. Viu uma grande dinastia diante dele… Ele disse: ‘Como será possível que essa grandeza toda surgirá de mim (descendentes) e, ao mesmo tempo, serei destruído?’ Ele não interpretou adequadamente – pois, na realidade, seus filhos que retornariam.”

Korach era um homem com várias qualidades, era um grande líder, e tinha a grande capacidade de discernimento, e o midrash inclui a capacidade profética. Mas o que ele viu?

O texto deixa claro que ele teria visto Shmuel haNavi, o profeta Samuel. Sendo assim, sua interpretação errônea teria sido que, por causa da sua descendência, ele teria algum tipo de imunidade política, e poderia questionar a liderança de Moshe sem nenhum tipo de consequência grave.

Mais ainda: só faria sentido alguém como Shmuel vir dele, se ele fosse capaz de avançar para que seus descendentes herdassem suas qualidades de liderança e destino, por isso Korach decidiu iniciar um movimento que tenta substituir a autoridade de Moshe.

Sabemos que ele estava enganado; que a verdade é que Shmuel veio da linhagem Korach pelo mérito de seus filhos, não pelo seu próprio, uma vez que eles decidiram rejeitar os ideais do pai e buscaram um processo genuíno de teshuvá.

Devemos nos lembrar da profecia de Yirmiyahu, ao considerar o raciocínio de Korach:

“Não se glorifique o sábio por sua sabedoria, nem o forte por sua força, nem o rico por suas riquezas! Antes, se glorifique em Me entender e em Me conhecer, e saber que EU sou H’Shem, que pratico misericórdia, retidão e justiça na terra; porque nisto Me deleito – diz H’Shem.”

O que o profeta deixa claro é algo básico, mas que é costumeiramente esquecido ou ignorado: tudo que temos, incluindo nossas capacidades, tem apenas uma origem, a misericórdia divina. Mas nenhum desses dons recebidos é garantia alguma de sucesso.

Fica evidente também que aquele que tem algum tipo de orgulho por causa de seus talentos ou desempenho corre o risco de ser destruído por eles, como ocorreu com Korach. Essas habilidades exigem uma série de responsabilidades para que rendam frutos verdadeiros – talento por talento não é garantia de absolutamente nada.

A insatisfação de Korach com aquilo que tinha acabou ajudando seu yetzer hará (inclinação para o mal), que fez com que o primo de Moshe tivesse certeza de que merecia mais, por todas as suas habilidades e capacidades – apenas pela potência individual ele deveria ser melhor reconhecido, mais aplaudido. Mas, na realidade, acabou limitando sua capacidade de interpretação profética.

Apenas com a dedicação sincera ao Santo, Bendito Seja, que se traduz como uma busca por realizar a Sua vontade, é possível observar o florescer das habilidades dadas por D’us. Korach era um profeta, e teve uma visão do que viria dele, mas ele achou que isso seria fruto da sua própria glória, da sua potência individual, que ele seria o grande responsável por tal influência na história. Por isso ele acabou engolido pela terra.

Korach não era um tolo, mas acabou se cegando pelas habilidades dadas por D’us e, em seguida, pela quantidade de pessoas que conseguiu convencer, ao ponto de Moshe, ao se deparar com o confronto, se ajoelhou diante do pedido. Mas Moshe não entrou em um confronto direto – ou um suposto debate político – demonstrou seu conhecimento e buscou o caminho no local correto: diante de D’us.

No fim, H’Shem decidiu o que seria feito e mostrou diante de toda congregação o caminho que deveria ser tomado, foi Ele que deu fim à rebelião de Korach e, consequentemente, à rebelião da potência individual.

Cabe àqueles que permaneceram, fazer como o disse o profeta: se glorificar buscando usar seus talentos e habilidades no caminho ditado por H’Shem, como no estudo de Torá e na prática das mitzvot, momentos de meditação e reza.