“When I look through the window
I see only myself outside
And when I look into the mirror
I see faces of many others”

Yehuda Amichai

 

 


Imagem de JL G por Pixabay

A porção bíblica desta semana [Acharei Mot] será lida no último dia de Pessach. Ela tem início exatamente fazendo menção à morte dos dois filhos de Aarão, o sumo-sacerdote e irmão de Moisés. Estando Aarão com seu coração partido pela perda dos seus filhos, não lhe é dado o direito de vivenciar o luto. Ao contrário, ele deve se concentrar em realizar um serviço por si mesmo e por sua casa, bem como por toda a congregação de Israel.

A narrativa que lemos leva-me a ver o sacerdócio como um serviço cheio de riscos pessoais – tão arriscado que ceifou a vida dos seus dois filhos, Nadabe e Abiú – e também um serviço solitário. 

“E nenhuma pessoa ficará dentro da tenda de reunião quando ele [o sumo-sacerdote] vier para fazer expiação no Santo dos Santos” [Lev. 16:17]

Fiquei pensando: que características deve ter uma pessoa que se propõe ao sacerdócio?

Penso que deva ser alguém pessoalmente envolvido em assuntos ligados à espiritualidade. Naquele contexto do relato, ele deveria realizar todo o ritual de sacrifícios por si mesmo e por sua família; e só após ele próprio haver expiado as suas impurezas, pelos delitos e pecados cometidos (afinal, o sacerdócio é para ser exercido por seres humanos), ele estaria apto a realizar todo o ritual pela congregação. Aqui encontro outra característica do sacerdote: o altruísmo. Ele deve realizar um esforço solitário pelo bem da coletividade. Ele assume o risco inerente à tarefa em prol dos demais. E mesmo tendo o coração ferido, ele não pode se deixar abater a ponto de perder o outro de vista.

E aqui encontro uma terceira característica do exercício sacerdotal: a empatia. Ninguém, além dele, estava autorizado a se adentrar ao lugar mais privativo do santuário. A prova disso é que seus dois filhos, meio que se sentindo em sua própria casa no local de trabalho do pai, confundem o que é da ordem do privado e invadem esse espaço que, mesmo de privativo acesso, é essencialmente um espaço da coletividade. O caso de Nadabe e Abiú parece ser uma amostra de um problema ético na perspectiva judaica. A Ética da Alteridade, como definida por Emanuel Lèvinas, não admite o modelo convencional da relação eu-outro, uma relação que transforma o outro na extensão do Eu.

O líder empático e servidor, ao contrário, sabe muito bem a centralidade que o outro tem naquele lugar mais do que sagrado. Por isso mesmo ele se coloca no lugar do outro e, movido por compaixão, ele deixa em um segundo plano a sua própria dor para fazer algo que evitará que outros também venham a sofrer.

A porção do poema em epígrafe apresenta duas visões de mundo: na primeira, o indivíduo vê o mundo a partir da centralidade do ser; enquanto na segunda, o indivíduo se desloca para a posição do outro, e de lá, consegue ver-se a si mesmo. O processo de deslocamento que torna possível pôr-se no lugar do outro está muito presente na literatura judaica moderna e contemporânea, quer nos romances de Amós Oz, quer na poesia de Yehuda Amichai, ou ainda nos ensaios de Hannah Arendt, mas também na literatura primitiva e tradicional, como aparece na porção da leitura bíblica que estamos estudando.

Tudo o que foi ensinado com esse relato envolvendo o sumo-sacerdote pode ser expandido para o líder, independentemente de tratar-se de uma liderança espiritual, política ou comunitária. Uma pessoa que pretenda exercer genuinamente o papel de líder precisa, antes de tudo, demonstrar um comprometimento e envolvimento pessoal que lhe permita um permanente reconhecimento do outro. 

Esta porção da Torá é tão importante que voltará a ser lida em Iom Kipur, depois de Pessach. Mesmo que à primeira vista, ambas as comemorações pouco tenham em comum à primeira vista, em um olhar atento é possível encontrar que seus opostos se atraem. A liberdade celebrada em Pessach tanto é motivo de alegria e júbilo quanto de reverência e respeito frente à dor do outro (no caso, os egípcios que pereceram no mar). Assim mesmo, Iom Kipur é o dia mais solene e temível do ano, tempo de almas afligidas, ao mesmo tempo em que se transforma em alegria com a assinatura do nome no livro da vida. 

Que possamos, assim como limpamos nossas casas para Pessach, limpar os nossos corações para Iom Kipur; e assim como incluímos à mesa no seder aquele outro, que não é como nós, que possamos incluir em nossa reflexão para Iom Kipur a medida de uma virtude que apenas pode ser revelada quando meus atos de justiça se dirigem à alteridade.

Kelita Cohen é psicóloga, doutora em processos de desenvolvimento humano e saúde pela Universidade de Brasília (UnB) e estudante de rabinato no Instituto Ibero-americano de Formação Rabínica Reformista (IIFRR), além de integrar a Comissão Religiosa da ACIB.

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