Texto escrito por Mathias Bloch

Texto dedicado à Leilui nishmat do Rav Jacob de Oliveira zt”l

Shelach é uma das porções mais emblemáticas da Torá, que contém a continuação da tragédia iniciada pelo chet haEgel – o Bezerro de ouro. Desta vez a transgressão é iniciada pelos espias, que são enviados por Moshe para explorar a terra de Yisrael e trazer informações importantes para aqueles que estão prontos para adentrar.

Doze homens são enviados, os líderes de cada tribo. Apenas dois deles – Kalev ben Yefuné e Yehoshua bin Nun voltam com boas notícias, enquanto os outros dez voltam fazendo lashon hará (falar mal, menosprezar) da terra de Yisrael, segundo a Mishná em Arachin 15a, dizendo coisas como:

‘A terra pela qual passamos… é uma terra que consome seus habitantes, e as pessoas que lá vimos eram gigantes’ (Bamidbar 13:32)

O povo acabou acreditando nas más palavras, e chorou. O Santo, Bendito Seja, acabou por decidir que estes não mereceriam entrar na terra, então a geração foi condenada andar pelo deserto por 40 anos, até que a geração fosse substituída.

Assim, seguiram no deserto, mas não foram sozinhos, foram recebendo o Maná – comida milagrosa que vinha dos Céus, que era completamente absorvida pelo corpo – para sustentá-los. Suas roupas não se desgastavam e uma coluna de nuvem os guiava durante o dia – protegendo-os do sol – e uma coluna de fogo não permitia que o frio da noite do deserto os afetasse.

Mesmo assim, muitos se sentiram abandonados por D’us, e os questionamentos quanto ainda serem definidos como ‘Uma nação de sacerdotes, um povo santo’ ainda ser válido. Teriam sido abandonados por H’Shem? Ainda estariam vinculados aos mandamentos e a buscar um relacionamento com D’us?

Uma pessoa é responsável pela resposta: o chamado Mekoshesh. Um homem que publicamente decide profanar o shabat publicamente, como está escrito:

‘E os filhos de Yisrael estavam no deserto, e acharam um homem que recolhia lenha no dia de Shabat. E os que acharam recolhendo lenha o trouxeram a Moshe, a Aharon e a toda a congregação…
E H’Shem disse a Moshe: Tal homem será morto…’ (Bamidbar 15: 32-35)

O homem foi levado diante da congregação para que ficasse claro: sim, os filhos de Yisrael ainda estão vinculados aos mandamentos e às suas responsabilidades. Alguns Midrashim inclusive afirmam que o Mekoshesh teria profanado o shabat de propósito, se sacrificando para mostrar ao resto da comunidade que as regras ainda valiam.

A questão é que outro mandamento importantíssimo aparece no final parashá. O mandamento dos tzitzit, as franjas que deveriam ser colocadas nos quatro cantos da roupa, que deram origem ao Tallit, vestimenta que usamos durante nossas rezas. O tzitzit tem a seguinte função:

‘Para que vos lembreis e cumprais todos os Meus preceitos e sejais santos para com vosso D’us.’
(Bamidbar 15:40)

O Rav Shimshon Rafael Hirsch diz que não é o mero símbolo do tzitzit que deve ser lembrado, mas que ele é usado para que tenhamos em mente H’Shem e sua relação especial conosco. O tzitzit está lá para mostrar que, independentemente do que estamos fazendo ou de onde estamos, devemos manter constantemente em nossas mentes que temos um caminho, temos deveres e que pertencemos a D’us com a totalidade das nossas existências, e isso é o que significa ‘ser santos para com vosso D’us’.

Esse comentário surge a partir da ideia de que coisas boas levam a coisas boas, como o cumprimento de uma mitzvá leva ao cumprimento de outras mitzvot. Assim como o contrário também é verdadeiro, uma averá (transgressão) também leva a outras averot (transgressões). Como eles erraram antes, deve ficar claro que existe sim caminho de volta, como meu pai me disse uma vez:

‘Cavalos rápidos tem um problema: eles desviam do caminho e podem parar muito longe. Mas também tem uma vantagem, podem retornar rapidamente ao perceberem que saíram da rota que deveriam estar.’

Sair do caminho acaba parecendo o fim do mundo, que não há mais volta. Mesmo na vida moderna podemos nos sentir presos no deserto, sem saber onde podemos chegar ou se podemos sobreviver, onde parecemos condenados a vagar sem destino certo por anos.

Neste momento somos lembrados de uma lição: usar o mandamento dos tzitzit para que fique claro nas nossas mentes que somos o cavalo rápido, é possível retornar rapidamente ao caminho.

Sendo assim, nos momentos em que estamos presos nos nossos ‘desertos pessoais’, distantes do caminho ideal, é o momento onde devemos retornar ao caminho, onde a Torá deve ser estudada e observada, o relacionamento com D’us, por meio deste mesmo estudo e das rezas deve ser priorizado.

Independentemente do momento, permanecemos vinculados pela Torá e preciosos para o Santo, Bendito Seja. Estar no deserto pode demonstrar que estamos distantes do ideal, mas não nos absolve de tentar e buscar fazer o melhor, não importam os tamanhos das dificuldades, é necessário mantemos a nossa relação com D’us, para quem somos obrigados, pelo dever de ser santos, a servir fielmente.